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Remediação e as tétrades de Marshall McLuhan: Um exercício de Comunicação Comparada

 

Objetivo do texto: Analisar e aproximar as discussões propostas por Bolter, McLuhan e Grusin em torno das tétrades de McLuhan e da noção da remediação (remediation), aplicando-as e comparando-as aos novos suportes digitais de comunicação.

Indagando sobre o que é um meio de comunicação, os autores respondem que “um meio é aquilo que remedia outro meio”, ou seja, um meio que se apropria das técnicas, formas e significação social de outro meio e tenta imitá-lo, incorporá-lo ou desafiá-lo.

A premissa é que nenhum meio pode ser compreendido isoladamente; e que as apropriações e hibridimos que ocorrem entre meios diferentes não surgem com as tecnologias digitais, mas são antes fundantes da dinâmica do desenvolvimento dos meios de comunicação, desde os seus primórdios:  As novas mídias estão fazendo exatamente o que seus predecessores fizeram: apresentando elas mesmas como versões aperfeiçoadas de outras mídias.

Estes argumentos remetem-se primeiramente ao trabalho de McLuhan – especialmente à célebre premissa de que “o conteúdo de um meio é sempre outro meio” (Pereira; 2002). Esta perspectiva reafirma a cicularidade entre meios, a contaminação entre gêneros, a impureza e os hibridismos como a regra, e não a exceção dentro dos processos de mediação, alertando-nos assim contra a armadilha de valorizar as “novas” tecnologias da comunicação em detrimento das “antigas”, supondo rupturas e fronteiras muitos rígidas entre estas e aquelas.

O trabalho de Marshall MuLuhan é fundamental para qualquer um que aspira construir linhas de pensamentos associadas ao estudo das novas tecnologias da informação. Ele utilizou o termo “aldeia global”  para expressar o senso de comunidade que as telecomunicações estavam criando. Seu livro Understanding Media (Em português, Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem) o transformou num guru da Comunicação, embora tenha sido criticado por  outros estudiosos de mídia.

Seu último livro só foi publicado depois de sua morte e não recebeu tanta atenção quanto seus livros anteriores.  Parte do livro Laws Of Media deriva de um problema posto pelo filósofo Aristóteles. Ele desenvolveu o que ele chama de "as quatro causas" da ação humana [1]:

"The first is the FORMAL cause, the plan of what we intend. The second is the MATERIAL cause, the components we employ. The third is the EFFICIENT cause, the methods we use. The fourth is the FINAL cause, the goal of the action."

 

A ciência era assim entendida como uma conjunção de causa e efeito. Desde que Aristóteles especificou as causas da ação humana, ninguém propôs os quatro efeitos para complementá-los, especialmente porque nosso tempo parece ser a era "científica". Até que alguém pensou sobre as quatro propriedades: McLuhan. Sua tese é extremamente simples.

Resumindo, ele propõe o seguinte: todas as realizações humanas exibem quatro tipos de efeitos que, juntos, absorvem todos os tipos de conseqüências que nós experimentamos. Estas propriedades, também conhecidas como "tétrades" [2], são:

1) Recuperação: tudo que é novo contém um elemento que já existia anteriormente. Para o autor, o elemento recuperação não se trata simplesmente de colocar em evidência o recurso antigo. Algumas transformações ou metamorfose são necessárias para que ela se relacione com a nova mídia – assim como qualquer um testemunha alguém experimentando revisitar a nossa cultura, seja em moda ou música ou em qualquer outra forma. A coisa antiga é trazida de volta atualizada, assim como era.

2) Extensão: novos dispositivos são responsáveis pelo aperfeiçoamento do meio (ou de qualquer elemento) se comparado com o antigo;

3) Obsolescência: novos elementos tornam elementos antigos ultrapassados; A idéia de obsolescência significa dizer que quando uma característica de um veículo é ampliada ou explorada, uma outra é anestesiada. Como McLuhan explica, a própria  extensão de algumas características do meio nos leva automaticamente a perceber que outros recursos de publicação se tornam obsoletos: MCLUHAN (1999, p: 99): "Qualquer nova técnica, idéia ou ferramenta, enquanto que permite novas possibilidades de ação pelo usuário, coloca de lado os modos antigos de fazer coisas."

 

4) Reversão: tende-se a potencializar o novo até ele se transformar em outras coisas e suscitar novas questões em detrimento de outras. O aspecto de reversão da tétrade é suscintamente exemplificado numa máxima da teoria da informação: os dados sobrecarregam o reconhecimento do modelo. Qualquer processo ou forma da palavra, colocada no limite de seu potencial, reverte sua característica e se torna uma forma complementar.

McLuhan explica que essas quatro propriedades devem ser pensadas simultaneamente [3]:

All four aspects are inherent in each artefact from the start. The four aspects are complementary and require careful observation of the artefact in relation to its ground, rather than consideration in the abstract.

 

A combinação das quatro causas e dos quatro efeitos faz com que possamos avaliar os impactos e implicações das novas tecnologias. Suas idéias a respeito das inovações tecnológicas como extensões das habilidades e do sentido humanos alterando a relação dos mesmos e remodelando a sociedade que utiliza determinada tecnologia é crucial para o presente ensaio. Segundo o autor, as tecnologias, como extensões do homem, influenciam na forma de ele se relacionar com o mundo, podendo gerar assim novas necessidades e tecnologias, que podem suscitar novos ambientes [4] e meios de comunicação.

 

  

 

Exercício: escolher um meio de comunicação e compará-lo a um outro meio, utilizando as tétrades de McLuhan:

 

Estende:

Recupera:

Reverte:

 

Obsolesce:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

[1] http://www3.sympatico.ca/cypher/effects.htm em 24/09/2001. Traduzindo: A primeira é a causa formal, o plano que nos interessa. A segunda é a causa material, os componentes que empregamos. A terceira é a causa eficiente, os métodos que usamos. A quarta é a causa final, o resultado da ação.

[2] McLUHAN, Marshall. and Eric. The Laws of Media. Toronto, University of Toronto Press. 1988 P: 98 "Our laws of media are intended to provide ready means of identifying the properties of and actions exerted upon  ourselves by our technologies and media and artefacts. They do not rest on any concept or theory, but are empirical, and form a practical means of perceiving the actions and effects of ordinary human tools and services. They apply to all human artefacts, wheter hardware or software, whether bulldozers or buttons, or poetic styles or phylosophical systems.  Traduzindo: "Nossas leis de mídia têm a intenção de provir meios para identificar propriedades e ações enxertadas em nós mesmos através de tecnologias, mídias e artefatos. Elas não estão relacionados a nenhum conceito ou teoria, mas são empíricas e formam meios práticos para a percepção de ações e efeitos das ordinárias ferramentas  e serviços humanos. Elas se aplicam a todos os artefatos humanos, sejam eles hardware ou software, sejam eles tratores ou botões, ou estilos poéticos ou sistemas filosóficos."

 

[3] Idem, Ibidem.

[4] WALVERDE, M.E. "A Transformação Mediática  dos Modos de Significação (Anotações para uma Releitura de McLuhan)", in: Textos de Cultura e Comunicação no. 28, Salvador, FACOM/UFBA, segundo semestre de 1992, p.53/54. Sobre ambiente, Monclar Valverde  explica que "ao estabelecer um novo ambiente, cada novo meio e cada nova tecnologia confere ao ambiente anterior uma nova propriedade de que antes não era dotado, pois enquanto ambiente humano, como fenômeno simbólico articulado por um sistema de valores, sua presença sua atuação e seu funcionamento escapam à consciência individual."